A natureza está nos mandando uma mensagem

Fonte: Enviroment


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Inger Andersen foi nomeada Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em fevereiro de 2019

A destruição da vida selvagem e a crise climática estão prejudicando a humanidade, e o Covid-19 é um alerta claro disso, dizem especialistas.

A natureza está nos mandando uma mensagem com a pandemia do coronavírus e a atual crise climática, afirmou a Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen.

Andersen disse que a humanidade tem sobrecarregando a natureza, o que provoca sérias consequências, e alertou que não cuidar do planeta significa não cuidar de nós mesmos.

Lideranças científicas também apontaram que o surto de Covid-19 é um claro alerta, pois existem muitas outras patologias letais no mundo selvagem e a civilização de hoje está “brincando com fogo”. Afirmaram também que quase sempre é o comportamento humano que faz essas doenças se espalharem para os seres humanos.

Para evitar novos surtos, especialistas defendem que devemos acabar com o aquecimento global e com o desmatamento provocado pela agricultura, mineração e habitação, pois ambos os fatores levam os animais ao contato com as pessoas.

Eles também pediram às autoridades que pusessem fim aos mercados com animais vivos – que formam a combinação perfeita para a transmissão de doenças – e ao comércio ilegal de animais.

Andersen, Diretora Executiva do PNUMA, disse que a prioridade imediata é proteger as pessoas do coronavírus e impedir sua propagação. “Mas nossa resposta a longo prazo deve combater a redução de habitats e da biodiversidade”, complementou.

“Nunca tivemos tantas oportunidades para os patógenos passarem dos animais selvagens e domésticos para as pessoas”, afirmou ao jornal The Guardian, explicando que 75% de todas as doenças infecciosas emergentes tem origem na vida selvagem.

“A perda contínua dos espaços naturais nos aproximou demasiadamente de animais e plantas que abrigam doenças que podem ser transmitidas para os seres humanos”

Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA

Ela também retratou outros impactos ambientais, como os incêndios florestais na Austrália, os recordes de temperatura no mundo e a pior invasão de gafanhotos no Quênia nos últimos 70 anos. “No fim das contas, a natureza está nos mandando uma mensagem com todos esses eventos”.

“Estamos sobrecarregando nossos sistemas naturais e algo precisa ser feito”, acrescentou. “Gostando ou não, somos intimamente ligados à natureza. Se não cuidarmos dela, não poderemos cuidar de nós mesmos. E, à medida que a população mundial avança para 10 bilhões de pessoas, precisamos adentrar no futuro tendo-a como nossa principal aliada”.

Os surtos de doenças infecciosas humanas estão aumentando cada vez mais. Nos últimos anos houve o Ebola, a gripe aviária, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), a Febre do Vale Rift, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), a Febre do Nilo Ocidental e o Zika vírus, todos passados de animais para seres humanos.

“O surgimento e a disseminação do Covid-19 não eram apenas previsíveis, mas também esperado [no sentido de que] outra doença derivada de animais silvestres se tornaria uma ameaça à saúde pública”, disse Andrew Cunningham, professor da Sociedade Zoológica de Londres (Zoological Society of London, em inglês). Um estudo de 2007 sobre o surto de Sars em 2002-2003 concluiu que “a presença do vírus Sars-CoV em morcegos-de-ferradura, juntamente com a cultura de comer mamíferos exóticos no sul da China, é uma bomba relógio”.

Cunningham disse que outras zoonoses têm taxas de mortalidade muito mais altas, como o Ebola, com 50%, e o Vírus Nipah, com 60% -75%, também transmitidas por morcegos no sul da Ásia. “Embora você não pense assim no momento, provavelmente tivemos sorte com o Covid-19″, acrescentou. “Então, devemos considerar isso como um claro alerta. É um tiro no escuro”.

“É quase sempre um comportamento humano que causa essas doenças e teremos mais situações semelhantes no futuro, a menos que mudemos”, disse Cunningham. Mercados que abatem animais selvagens vivos são, de longe, o exemplo mais óbvio a ser dado, afirmou. Acredita-se que um mercado na China tenha sido a fonte de transmissão do Covid-19.

“Os animais são transportados por grandes distâncias, amontoados em gaiolas. Eles ficam estressados, imunossuprimidos, e excretam quaisquer patógenos que existam dentro deles”, explicou. “Com o grande número de pessoas nesses mercados entrando em contato com esses fluidos corporais, temos uma combinação perfeita para o surgimento de doenças. Se você queria um cenário para maximizar as chances de transmissão, não existe um melhor do que esse”.

A China proibiu esses estabelecimentos e Cunningham acredita que isso deve ser permanente. “No entanto, isso precisa ser feito globalmente. Existem mercados úmidos em grande parte da África Subsaariana e em muitos outros países asiáticos”. Acrescentou ainda que a facilidade de viajar no mundo moderno agrava esses perigos, pois “atualmente, você pode estar em uma floresta tropical da África Central em um dia e no centro de Londres no dia seguinte”.

Aaron Bernstein, da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, disse que a destruição dos ambientes naturais e a mudança climática também forçam esses animais a se movimentarem, aproximando-os das pessoas: “Isso cria uma oportunidade para os patógenos entrarem em contato com novos hospedeiros”.

“Tivemos Sars, Mers, Covid-19, HIV. Precisamos ver o que a natureza está tentando nos dizer. Devemos reconhecer que estamos brincando com fogo”, afirmou.

“A separação das políticas de saúde das ambientais é uma ilusão perigosa. Nossa saúde depende inteiramente do clima e de outros organismos com os quais compartilhamos o planeta”.

O comércio bilionário e ilegal de animais silvestres é outra parte do problema, disse o ex-secretário geral da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), John Scanlon.

“Os países importadores deveriam criar uma nova obrigação legal, apoiada em sanções criminais, para que os importadores de animais selvagens provem que eles foram obtidos legalmente, seguindo as leis nacionais do país de origem”, afirmou. “Se conseguirmos nos unir na luta contra o crime organizado transnacional de animais silvestres, ao mesmo tempo em que damos novas oportunidades para as comunidades locais, veremos a biodiversidade, os ecossistemas e as comunidades prosperarem”.

A crise do Covid-19 nos oferece uma oportunidade de mudança, mas Cunningham não está convencido de que ela será aproveitada. “Eu pensei que as coisas mudariam depois do Sars, que também foi um grande alerta – o maior impacto econômico causado por doenças emergentes até aquela época”.

“Todo mundo estava de mãos atadas. Mas o vírus foi superado, graças às nossas medidas de controle. Depois, houve um grande alívio e voltamos a viver como era de costume. Não podemos repetir isso dessa vez”.